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15/09/2009 O MILAGRE DE SANTA LUZIA MOSTRA BRASIL PELA SANFONA
O MILAGRE DO FOLE
Documentário desenha retrato sensível, mas irregular, da música e do Brasil
Exú, semi-árido pernambucano. Este é o ponto de partida de “O Milagre de Santa Luzia”, longa metragem de estréia do diretor Sergio Roizemblit. Primeiro ponto que costura toda a obra, Exú é a cidade natal de Luiz Gonzaga do Nascimento, o Gonzagão.
Como se fosse um prefácio, um longo take de Dominguinhos em Exú, caminhando sobre o asfalto tocando Lamento Sertanejo abre o documentário. Música dele próprio e de Gilberto Gil, diz algo como: não vamos falar só de Gonzaga, vamos viajar pelo Brasil, mas deixando claro que o milagre se operou ali, nascido de Dona Santana e de Seu Januário. Gonzagão é o mote, Dominguinhos o mestre de cerimônia, o Brasil e a Sanfona os atores.
O resultado é um bonito painel do Brasil e da música. Longe de ser uma obra prima, O Milagre é simples como os personagens que retrata. Às vezes resvala nas receitas comuns de close-ups das faces enrugadas das gentes simples, facilitando o tom dramático da narrativa. Outras se revela sensível às vozes pouco diatônicas de um grupo de vaqueiros flagrados na estrada, vindos de uma missa. A narrativa foi distribuída por regiões e faltou certa isonomia no peso dado a cada uma. Reflexo, certamente, da quantidade de material que o diretor já acumulara do trabalho “O Brasil da Sanfona” realizado com Miriam Taubkin.
Apresenta bem os contrastes, sem didatismo exagerado, das representações musicais nas regiões que percorre. Perfila Dominguinhos, Mario Zan e Oswaldinho do Acordeon com naturalidade. Deixa natural o espanto do velho sanfoneiro ítalo-paulista, já morto, com a esquisitice que o representante mais novo apresenta na sanfona sampleada Roland. “Essa coisa faz tudo!”.
Sergio Roizemblit, em entrevista ao Actors Studios, disponível na internet, afirma que documentário também é ficção. Assertiva que parece conduzir a produção e que, mesmo contrariando o mote do “é tudo verdade”que gostam os documentaristas, torna o conjunto bonito e emocionante. Não é tudo verdade. Apesar de não haver atores profissionais, a maioria das sequências são ensaiadas, repetidas, enfim, construídas como em qualquer ficção, revela o diretor.
Alguns trechos estão disponíveis no YouTube, como o impagável depoimento de “Pinto do Acordeon”, que diante de uma ameaçadora e afiada faca, despachadamente afofa o fole e manda um “New York, New York” no mais puro embromeichon. Um dos pontos altos.
No mais Roisemblit constrói um périplo onde não faltam imagens de ararinhas azuis, céus de anil quase dramático, closes de pés rachados. Talvez pensando no mercado externo, que valoriza o contraste entre a rudeza humana e exotismo natural da terra das palmeiras onde cantam sabiás, sivucas, gonzagas e Dominguinhos.